4/08/2013

Conto de Diego Müller


Em comemoração ao aniversário do primeiro ano do blog, em 2006, a Gata realizou um concurso de contos e premiou seus talentosos leitores. O primeiro lugar coube a Diego Müller, com seu Cortejo Negro.Boa leitura!

O 1° lugar levou a coleção do mestre Fellini (4dvds) com os filmes: "A Doce Vida" (1960), "Julieta dos Espiritos" (1965), "Abismo de um Sonho" (1952) e "Nino Rota, entre o cinema e o Erudito" (2000).

CORTEJO NEGRO - DIEGO MÜLLER

Os troncos secos da mata há muito morreram. Névoa grossa cegava além do estreito caminho que cruzava o lugar. O açude secara naquele tempo de pouca chuva. Tinha eu poucos anos. O balde cheio de água embarrada mal dava para beber. Hoje nem parece estreito d’água, e sim campo seco.
O caminho era lento praqueles todos. Todos negros, se arrastando num bolo de negrura em movimento. Bandeiras negras, camisas negras. Cheiro de morte e tristeza. Aroma de incenso velho. Folha queimada, ressecada ao mormaço de chuvarada, quase apodrecida.
O compasso de marcha: tum, tum, tum de tambor. Breve choro e soluço. A carroça, nova ou pouco usada, mal rangia. O cavalo, velho e desinteressado, ia por que ia. Pouco importa o defunto. O chão, carbonizado, tudo pintava de negro. Eu observava tudo, num aspecto de mineiro, maquiado para os túneis - camuflagem de curioso.
Todos em fila: ia o padre, grande homem negro, o carro, novo e negro, a viúva, jovem negra, as filhas, pequenas flores negras, os outros, todos negros, e alguns, nem sei bem, negros. Negros? Eu também.
Os poucos troncos ainda em pé desmoronavam com o tempo. Primeiro a casca, que firmava o oco pilar de mato morto. Depois o resto, que era o todo pois nada havia além do tronco. Eu era o tempo. Minha mão raspava a superfície, as unhas cravavam no caule, derrubando pequenos fragmentos podres. Esfarelava o tronco. Era tão fatal quanto o fogo que queimara tudo. Mato negro, açude seco. Isso quando tinha poucos anos. Nem conhecia ela e ela não me conhecia. Pelo menos acho eu. Mas todos eram próximos, só não se falavam. Não havia interesse algum em se chegar. Só se fosse para aumentar o pátio de casa. E assim foi. Lembro que era uma tal de Madissinéia. Nome estranho, nome difícil. Filha minha terá nome de santa! Então Maria e Maria. Vieram logo. Todos de branco.
Muito pouco tempo. Já não as tenho. Creio que há dois dias ando pelo costado da estrada, neste imenso matagal morto, carbonizado e negro. A noite ainda mais. Na hora que perdi os sentidos me veio à cabeça este lugar desolado. A medida que a vista nublava, a ferida queimava e o corpo tremia, não sei porque lembrei desta horrorosa assombração de tudo morto. Não devia ter ido a casa! Nem saber eu queria. Se soubesse, pediria para não saber. Não sabendo, ninguém saberia. 
Ele estava lá, em meu lugar. Eu no lugar errado. Demoraram a perceber que os via. Creio que as meninas a brincarem no pátio abafaram minha entrada. Mas ao me verem logo desvencilharam-se, um para cada lado. Ela para esconder-se nos panos. Ele para o cabo da arma. Tum, tum, tum de tambor.
Uma das Marias se ajoelhou e me pegou na mão. Madissinéia, tapada somente por um lençol branco, deixava as canelas a mostra, denunciando pernas mal depiladas. O sol daquela tarde transparecia o branco, e a deixava nua, suada. Estava revolta pelo sol intruso que lhe silhuetava. Quase aura, tipo santa. A Maria ao meu lado chorava. A outra, escondia o rosto na cintura da mãe que, sem bem lembro, não chorava, não ria, não cegava, nada. Estava com um olhar firme, numa expectativa de "quase".
As janelas bateram fortes numa ventania repentina. Os cabelos de Madissinéia agitaram-se. Minha Maria chorava mais alto, mas eu a ouvia cada vez menos. A outra Maria ainda mais longe. A porta também dava fortes socos contra a parede da sala. Tivesse o desgraçado fechado a porta ao sair para ninguém me ver.
Já iam longe na estrada que cruzava o mato. Eu não conseguia ir além. Todos em fila. Novamente um breve soluço e choro. Eles pisoteavam os galhos, numa sincronia de pisar, estalar, pisar. Todos no mesmo galho. Todos negros. Ela enxugava o suor feito lágrima. Devia estar cansada. Era difícil para uma jovem vestir negro.
De longe ainda sentia o azedo cheiro do cortejo negro. Via pequenos pontos negros em fila. Um grande homem negro ponteando os outros. Uma negrura jovem com mais duas outras. Outros negros juntos numa massa triste. Também alguns que nem sei bem se de negro iam. E eu fiquei no mato, recostado ao tronco. Vazio, oco, morto. Rodeado de outros, todos negros, muitos outros.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

pode gostar de...

Sandra SantosGatosMuseu do botao Arte erotica Codigo Coletivo

Traduzir