4/29/2013

Galeria

Galeria de Arte do Google, uma viagem pela história da arte através dos logos comemorativos, os doodles.

As logos são criação do artista gráfico Dennis Hwang. 




(*1452 †1519 - Itália) Leonardo Da Vinci: Renascimento






(*1599 †1660 - Espanha) Diego Velázquez: Barroco






(*1887 †1985 - Russia) Marc Chagall: Surrealismo



(*1898 †1972 - Holanda) Maurits Cornelis Escher: Surrealismo




(*1840 †1926 - França) Oscar-Claude Monet: Impressionismo




(*1863 †1944 - Noruega) Edvard Munch: Expressionismo



(*1881 †1973 - Espanhaa) Pablo Picasso: Cubismo




(*1912 †1956 - EUA) Jackson Pollock: Abstracionismo




(*1853 †1890 - Holanda) Vincent Van Gogh: Pós- impressionismo





(*1928 †1987 - EUA) Andy Warhol: Pop Art



4/25/2013

Conto de Balzac - A obra-prima

Le Chef d’œuvre - A obra-prima ignorada de Honoré de Balzac

Este conto faz parte da Comédia Humana e exerceu verdadeira fascinação entre os artistas. Picasso, além de trabalhar nas ilustrações da edição de 1927, chegou a instalar-se no prédio que supostamente serviu de cenário para a história de Balzac. Neste prédio pintaria Guernica, sua própria obra-prima. Mudemo-nos, então, para a "rue des Grands-Augustins", em Paris:
    





I
GILLETTE

Em fins de 1612, numa fria manhã de dezembro, um rapaz, cujo vestuário era de modesta aparência, passeava em frente à porta de uma casa situada na rue des Grands Augustiniens, em Paris. Depois de por muito tempo caminhar por aquela rua com a irresolução de um amante que não ousa apresentar-se em casa da sua primeira conquista, por mais fácil que ela tivesse sido, acabou por transpor o umbral daquela porta e perguntou se mestre Francisco Porbus estava em casa. Ante a resposta afirmativa que lhe foi dada por uma velha entretida em varrer uma sala baixa, o jovem subiu agilmente os degraus, detendo-se em cada um deles como um cortesão noviço, inquieto pelo acolhimento que lhe faria o rei. Quando chegou ao alto da escadaria de caracol, ficou um momento no patamar, hesitando se usaria ou não a grotesca aldrava que ornamentava a porta da oficina onde devia trabalhar o pintor de Henrique IV, ao qual Maria de Médicis preferiu Rubens. O rapaz experimentava essa sensação profunda que deve ter feito vibrar o coração dos grandes artistas quando, em pleno zênite da mocidade e do amor pela arte, enfrentaram um homem de gênio ou alguma obra-prima. Existe em todos os sentimentos humanos uma flor primitiva, engendrada por um nobre entusiasmo que vai continuamente enfraquecendo até que a felicidade não seja mais do que uma lembrança e a glória uma mentira. Por entre essas frágeis emoções, nada se assemelha tanto ao amor como a juvenil paixão de um artista que inicia o delicioso suplício de seu destino de glória e de infortúnio, paixão cheia de audácia e de timidez, de crenças vagas e de desânimos positivos. Ao artista que, de poucos haveres, que, adolescente de gênio, não palpitou vivamente ao apresentar-se diante de um mestre, sempre faltará uma corda no coração, não sei que pincelada, que sentimento na obra, que indefinível expressão de poesia. Se alguns fanfarrões, cheios de si, crêem muito cedo no futuro, esses serão homens de espírito somente para os néscios. A ser assim, o jovem desconhecido parecia ter verdadeiro merecimento, se é que o talento deve medir-se por essa timidez inicial, por esse pudor indefinível que os que são destinados à glória sabem perder no exercício de sua arte, como as mulheres bonitas perdem o seu nos manejos da faceirice. O hábito do triunfo apequena a dúvida, e o pudor é talvez uma dúvida.
Deprimido pela miséria e surpreendido naquele momento por sua petulância, o pobre neófito não teria entrado em casa do pintor a quem devemos o admirável retrato de Henrique IV, sem um auxílio extraordinário que o acaso lhe proporcionou. Um ancião vinha subindo a escada. Pela singularidade do seu traje, pela magnificência de seu cabeção de renda, pela preponderante calma do seu andar, o rapaz adivinhou ser aquele personagem um protetor, ou amigo do pintor; recuou no patamar para dar-lhe lugar e examinou-o com curiosidade, na esperança de achar nele a boa índole de um artista ou o caráter serviçal das pessoas que amam a arte; mas naquele rosto divisou alguma coisa de diabólico, e, sobretudo, esse não sei que que tanto atrai os artistas. Imaginem uma fronte calva, abaulada, proeminente, projetando-se saliente sobre um nariz pequeno e chato, arrebitado na ponta como o de Rabelais ou o de Sócrates; uma boca risonha e enrugada, um queixo curto, orgulhosamente erguido, tapado por uma barba grisalha, aparada em ponta, olhos verde-mar embaciados na aparência pela idade, mas que, pelo contraste do branco nacarado em que a pupila flutuava, deviam por vezes despedir olhares magnéticos no paroxismo da cólera ou do entusiasmo. O rosto, aliás, estava singularmente emurchecido pelas fadigas da idade e, mais ainda, por esses pensamentos que corroem igualmente a alma e o corpo. Os olhos não tinham mais cílios, e mal se viam vestígios de sobrancelhas por sobre as arcadas salientes. Ponham essa cabeça num corpo franzino e débil, cerquem-na de uma renda de deslumbrante alvura e perfurada como uma colher para peixe, atirem sobre o gibão preto do ancião uma pesada corrente de ouro e terão uma imagem imperfeita desse personagem, ao qual a escassa luz da escada acrescentava ainda uma cor fantástica. Dir-se-ia uma tela de Rembrandt caminhando silenciosamente, e sem o quadro, na escura atmosfera de que o grande pintor se apropriou. O ancião dirigiu ao rapaz um olhar repassado de sagacidade, bateu três pancadas na porta e disse a um homem valetudinário, de cerca de quarenta anos, que veio abrir:
- Bom dia, mestre.
Porbus inclinou-se respeito- samente; deixou o rapaz entrar, por julgá-lo trazido pelo ancião, e preocupou-se tanto menos com ele, por ter o neófito permanecido sob o encantamento que devem experimentar os pintores de vocação ante o aspecto do primeiro ateliê que vêem e onde se lhes revelam alguns dos processos materiais da arte. Uma clarabóia existente no teto iluminava o ateliê de Porbus. Concentrada sobre uma tela colocada no cavalete e que não fora ainda tocada senão por três ou quatros traços brancos, a luz não alcançava as negras profundezas dos cantos daquela vasta peça; entretanto, alguns reflexos perdidos faziam brilhar naquela sombra pardacenta uma paleta prateada no ventre de uma couraça de retre suspensa na parede, listavam com um brusco sulco de luz a cornija esculpida e encerada de um antigo aparador coberto de louças curiosas ou pontilhavam de pingos brilhantes o tecido granuloso de alguns velhos reposteiros de brocado dourado, de grandes pregas desfeitas, atirados ali como modelos. Manequins de gesso, fragmentos e bustos de deusas antigas, amorosamente polidas pelos beijos dos séculos, enchiam as mesinhas e os consolos. Numerosos esboços, estudos a lápis, a três cores, sanguíneos ou feitos a pena, cobriam as paredes até o teto. Caixas de tintas, garrafas de óleo e de essência, escabelos caídos não deixavam senão um caminho estreito para chegar embaixo da auréola projetada pela clarabóia, cujos raios caíam em cheio no pálido semblante de Porbus e sobre o crânio de marfim do homem singular. A atenção do rapaz foi logo exclusivamente solicitada por um quadro que, naquele tempo de motins e de revoluções, já se tornara célebre, e que era visitado por alguns desses teimosos aos quais se deve a conservação do fogo sagrado durante os dias maus.
Aquela bela página representava uma Maria Egipcíaca que se dispunha a pagar a passagem da barca. Essa obra-prima, destinada a Maria de Médicis, foi por ela vendida nos dias de sua miséria.
- Tua santa me agrada disse o ancião a Porbus - e eu te daria por ela dez escudos de ouro acima do preço que a rainha oferece; mas competir com ela... é o diabo!
- Acha-a bem?
- Hum! hum! fez o ancião - bem?... sim e não. Essa tua mulherzinha não está mal-arranjada, mas não tem vida. Vocês pensam ter feito tudo quando desenharam corretamente uma figura e puseram corretamente cada coisa em seu lugar segundo as leis da anatomia! Vocês cobrem esse esboço com tonalidades de carne de antemão preparadas na paleta, tendo o cuidado de manter um dos lados mais sombrio do que o outro, e, como olham de quando em quando uma mulher nua que se conserva de pé em cima de uma mesa, julgam ter copiado a natureza; imaginam que são pintores e que roubaram o segredo de Deus!... Prrr! Não basta para ser um grande poeta conhecer a fundo a sintaxe e não cometer erros de linguagem! Olha tua santa, Porbus! À primeira vista ela parece admirável; mas a um segundo exame vê-se que está colada no fundo da tela e que não seria possível dar uma volta em torno do seu corpo. É uma silhueta que só tem uma face, é uma aparência recortada, uma imagem incapaz de se virar, de mudar de posição. Não sinto ar entre esse braço e o fundo do quadro; faltam espaço e profundidade: entretanto, em perspectiva tudo está bem e a degradação aérea está exatamente observada; mas, apesar de tão louváveis esforços, eu não poderia crer que esse belo corpo esteja animado pelo morno sopro da vida. Parece-me que, se eu colocasse a mão naquele colo de carnes firmes e harmoniosas, eu o acharia frio como mármore. Não, meu amigo, o sangue não corre por baixo daquela pele de marfim, a vida não intumesce com seu orvalho purpúreo as veias e as fibrilas que se entrelaçam em redes sob a transparência de âmbar das têmporas e do peito. Este lugar palpita, mas aquele outro está imóvel, em cada pormenor a vida e a morte lutam: aqui é uma mulher, ali é uma estátua, mais além é um cadáver. Tua criação é incompleta. Não pudeste transmitir senão uma parte de tua alma à tua obra querida. O facho de Prometeu mais de uma vez se apagou nas tuas mãos e muitos lugares do teu quadro não foram tocados pela chama celeste.
- Mas por quê, meu caro mestre? - disse respeitosamente Porbus ao ancião, enquanto o rapaz dificilmente reprimia um forte desejo de sová-lo.
- Ah! aí está! - respondeu o velhinho. - Flutuaste indeciso entre os dois sistemas, entre o desenho e a cor, entre a fleuma minuciosa, a rigidez precisa dos velhos mestres alemães e o ardor deslumbrante, a feliz abundância dos pintores italianos. Quiseste imitar ao mesmo tempo Hans Holbein e Ticiano, Albrecht Dürer e Paolo Veronese. Evidentemente, era isso uma ambição magnífica! Mas que aconteceu? Não alcançaste nem a sedução severa da secura nem as decepcionantes magias do claro-escuro. Neste lugar, como um bronze em fusão que arrebenta seu molde fraco demais, a rica e loura cor do Ticiano fez romper-se o magro contorno de Albrecht Dürer, em que o tinhas moldado. Além, o desenho resistiu aos magníficos transbordamentos da paleta veneziana e os conteve. Tua figura não está nem perfeitamente desenhada nem perfeitamente pintada, e mostra em toda parte os vestígios dessa infeliz indecisão. Se não te sentias suficien- temente forte para fundir juntos ao fogo do teu gênio as duas maneiras rivais, devias ter optado francamente por uma ou outra, a fim de obter a unidade que simula uma das condições da vida. Tu não és verdadeiro senão nos centros, teus contornos são falsos, não se envolvem e nada prometem por detrás. Aqui há verdade - disse o ancião, mostrando o peito da santa. - E também aqui - continuou ele indicando o ponto em que, no quadro, terminava o ombro. - Mas ali - acrescentou, voltando ao centro do colo - tudo é falso. Não analisemos nada, que isso seria desesperar-te.
O ancião sentou-se numa banqueta, segurou a cabeça com as mãos e ficou calado.
Mestre - disse-lhe Porbus -, entretanto estudei bem o nu deste colo; mas, por infelicidade nossa, existem efeitos verdadeiros na natu- reza que na tela não são mais prováveis...
- A missão da arte não é copiar a natureza e sim exprimi-la! Não és um vil copista, e sim um poeta! - exclamou vivamente o ancião, inter- rompendo Porbus com um gesto despótico. - De outra forma, um escul- tor estaria quite com todos os seus trabalhos modelando uma mulher! Pois bem, experimenta modelar a mão de tua amante e a colocar diante de ti; depararás com um horrível cadáver, sem nenhuma parecença, e serás forçado a ir em busca do escopro do homem que, sem copiá-la exatamente, nela representará o movimento e a vida. Temos de apreender o espírito, a alma, a fisionomia das coisas e dos seres. Os efeitos! os efeitos! mas se eles são os acidentes da vida e não a vida! Uma mão, já que recorri a esse exemplo, uma mão não está unicamente presa ao corpo, ela exprime e continua um pensamento que é preciso apreender e reproduzir. Nem o pintor nem o poeta nem o escultor devem separar o efeito da causa, que invencivelmente estão um no outro. A verdadeira luta está aí! Muitos pintores triunfam instinti- vamente sem conhecer esse tema da arte. Vocês desenham uma mulher, mas não a vêem! Não é assim que se consegue forçar o arcano da natureza. As mãos de vocês reproduzem, sem que se dêem conta, o modelo que copiaram na oficina do mestre. Vocês não descem suficientemente na intimidade da forma, não a perseguem com suficiente amor e perseverança nos seus desvios e nas suas fugas. A beleza é uma coisa severa e difícil que não se deixa alcançar à vontade, é preciso esperar suas horas, espioná-la, acossá-la e enlaçá-la firmemente para obrigá-la render-se. A Forma é um Proteu muito mais inatingível e mais fértil em sinuosidades do que o Proteu da Fábula; não é senão depois de demorados combates que se pode constrangê-la a mostrar-se sob seu verdadeiro aspecto. Vocês contentam-se com a primeira aparência que ela lhes entrega, ou quando muito com a segunda, ou com a terceira; não é assim que procedem os lutadores vitoriosos! Esses pintores jamais vencidos não se deixam ludibriar por esses mais-ou-menos, perseveram até que a natureza se veja reduzida a mostrar-se inteiramente nua, e no seu verdadeiro espírito. Assim procedeu Rafael - disse o ancião, tirando seu boné de veludo preto para exprimir o respeito que lhe inspirava o rei da arte -, sua grande superioridade provém do sentido íntimo que, nele, parece querer despedaçar a forma. A forma, nas suas figuras, é o mesmo que entre nós, um intérprete para comunicar idéias, sensações, uma vasta poesia. Toda imagem é um mundo, um retrato cujo modelo surgiu numa visão sublime, colorido de luz, designado por uma voz interior, despido por um dedo celestial que mostrou, no passado de toda uma vida, as fontes da expressão. Vocês fazem nas suas mulheres belos vestidos de carne, belos cortinados de cabelos, mas onde o sangue que engendra a calma ou a paixão e que causa efeitos particulares? Tua santa é uma mulher morena, mas isto aqui, meu pobre Porbus, é de uma loura! As figuras de vocês são então pálidos fantasmas coloridos que vocês nos passeiam diante dos olhos, e chamam a isso pintura e arte! Pelo fato de terem feito alguma coisa que se assemelha mais a uma mulher do que a uma casa, vocês pensam ter alcançado o alvo, e, muito ufanos por não serem mais obrigados a escrever ao lado de suas figuras, currus venustus ou pulcher homo, como os primeiros pintores, vocês julgam ser artistas maravilhosos! Ah! ah! ainda não alcançaram o alvo, meus denodados companheiros; terão ainda de gastar muitos lápis, borrar muitas telas antes de tal conseguir! Não há dúvida de que uma mulher traz a cabeça desse modo, ela segura a saia assim, seus olhos se enlanguescem e se fundem nesse ar de doçura resignada, a sombra palpitante dos cílios flutua desse modo sobre as faces! É isso e não é isso. Que falta, pois? um nada, mas esse nada é tudo. Vocês dão a aparência da vida mas não exprimem seu excesso que transborda, esse não sei que que é a alma, talvez, e que flutua nebulosamente sobre o invólucro; enfim, essa flor de vida que Ticiano e Rafael surpreenderam. Partindo-se do ponto extremo a que vocês chegaram, far-se-ia, talvez, excelente pintura;
mas vocês se cansam muito depressa. O vulgo admira, mas o verdadeiro conhecedor sorri. Ó Mabuse, ó meu mestre - acrescentou aquele singular personagem -, és um ladrão, levaste a vida contigo! Feitas essas restrições - prosseguiu -, esta tela vale mais do que as pinturas desse mariola de Rubens, com as suas montanhas de carnes flamengas, polvilhadas de vermelhão, com suas bátegas de cabeleiras castanhas e sua orgia de cores. Pelo menos você tem aí cor, sentimento e desenho, as três partes essenciais da arte.
- Mas essa santa é sublime, velhote! - exclamou o rapaz com voz forte, ao sair de demorado devaneio. - Essas duas figuras, a da santa e a do barqueiro, têm uma finura de intenção que os pintores italianos ignoravam; não conheço um único que tivesse inventado a indecisão do barqueiro.
- Esse maroto é seu? - perguntou Porbus ao ancião.
- Ai de mim! mestre, perdoe o meu atrevimento - respondeu o neófito, corando. - Sou desconhecido, um pintamonos instintivo, e chegado faz pouco a esta cidade, fonte de toda ciência.
- Mãos à obra! - retrucou-lhe Porbus apresentando-lhe um lápis vermelho e uma folha de papel.
O desconhecido copiou celeremente a Maria em poucos traços.
- Oh! oh! - exclamou o ancião. - Como se chama?
O rapaz escreveu por baixo: Nicolas Poussin.
- Eis aqui algo que não está mal para um principiante - afirmou a singular personagem que tão aloucadarnente discorria. - Vejo que se pode falar em pintura diante de ti. Não te censuro por teres admirado a santa de Porbus. Para todos é uma obra-prima, e somente os iniciados nos mais profundos arcanos da arte podem descobrir no que ela peca. Uma vez, porém, que és digno da lição e capaz de compreender, vou fazer-te ver o pouco que seria preciso para completar a obra. Abre bem os olhos e presta toda a atenção, pois semelhante ocasião de te instruíres não tornará jamais, talvez, a se apresentar. Tua paleta, Porbus!
Porbus foi buscar a paleta e os pincéis. O velhinho arregaçou as mangas com um gesto de rudeza convulsa, passou o polegar na paleta matizada e cheia das tintas que Porbus lhe oferecia; arrancou-lhe das mãos, mais do que o recebeu, um punhado de pincéis de todos os tamanhos, e sua barba, aparada em ponta, moveu-se subitamente por esforços ameaçadores que exprimiam o prurido de uma apaixonada fantasia. Ao mesmo tempo que enchia o pincel de tinta, resmungava entre dentes:
"Estas cores só prestam para ser atiradas pela janela, junto com o que as misturou: são de uma crueza e de uma falsidade revoltantes! Como se poderá pintar com isso?"
Molhava depois com febril vivacidade a ponta do pincel nas várias cores, das quais percorria por vezes toda a escala mais rapidamente do que um organista de catedral percorre a extensão de seu teclado no O filii da Páscoa.
Porbus e Poussin permaneciam imóveis, cada um deles a um lado da tela, mergulhados na mais veemente contemplação.
- Vês, rapaz - ia dizendo o velho, sem se voltar -, vês como por meio de três ou quatro pinceladas e de uns toques azulados se podia fazer o ar circular à roda da cabeça desta pobre santa, que devia estar sufocada e sentir-se presa nessa atmosfera densa! Olha como esta fazenda revoluteia agora e como se compreende que a brisa a soergue! Antes tinha o aspecto de uma tela engomada e presa com alfinetes. Estás notando como o brilho acetinado que acabo de depor no peito reproduz bem a fofa flexibilidade de uma pele de moça, e como o tom misturado de pardo-avermelhado e de ocre calcinado aquece a grísea frieza desta grande sombra na qual o sangue se coagulava em vez de circular? Rapaz, rapaz, o que aqui te estou mostrando nenhum mestre poderia ensinar-te. Somente Mabuse possuía o segredo de dar vida às figuras. Mabuse teve somente um discípulo, e esse sou eu. Eu não tive nenhum, e estou velho!
Tens suficiente inteligência para adivinhar o resto, por isto que te estou deixando entrever.
Ao mesmo tempo que falava, o estranho ancião tocava em todos os pontos do quadro: aqui duas pinceladas, ali uma única, mas sempre tão a propósito que se diria uma nova pintura, mas uma pintura banhada de luz. Trabalhava com um ardor tão apaixonado que o suor gotejou na sua fronte calva; ia tão rapidamente com pequenos movimentos tão impaci- entes, tão entrecortados que, para o jovem Poussin, parecia haver no corpo daquela singular personagem um demônio que atuava por suas mãos, tomando-as fantasticamente contra a vontade do homem. O brilho sobrenatural de seus olhos, as convulsões que pareciam o efeito de uma resistência davam àquela idéia um simulacro de verdade que devia atuar sobre uma imaginação moça. O ancião continuava dizendo:
- Paf! paf! paf! eis aqui como isto se lambuza, rapaz! Venham, minhas pinceladinhas, façam-me crestar este tom glacial! Vamos! Pon! pon! pon! - murmurava, dando calor às partes onde se assinalara uma falta de vida, fazendo desaparecer por meio de algumas placas de tinta as diferenças de temperamento, e restabelecendo a uniformidade de tom exigida por uma ardente egípcia.
- Vês, meu filho, o que vale é a última pincelada. Porbus deu cem; eu dou uma somente. Ninguém nos agradece o que está embaixo. Fique sabendo isso bem!
Finalmente, aquele demônio se deteve, e, virando-se para o Porbus e Poussin, mudos de admiração, disse-lhes:
- Isto não vale ainda a minhaBelle Noiseuse; entretanto, podia-se assinar o nome ao pé de semelhante obra. Sim, eu a assinaria - acrescentou, erguendo-se para pegar um espelho, no qual olhou-a. - Agora, vamos almoçar - disse ele. - Venham os dois à minha casa. Tenho presunto defumado e bom vinho!... Eh! eh! apesar dos tempos desgraçados, falaremos de pintura! Somos de força... Aqui está um homenzinho - acrescentou, dando uma palmada no ombro de Nicolas Poussin - que tem facilidades.
Ao ver então o casaco ordinário do normando, tirou do cinturão uma bolsa de couro, meteu os dedos nela, de lá trouxe duas moedas de ouro e, mostrando-lhas:
- Compro o teu desenho disse ele.
- Aceita - aconselhou Porbus a Poussin, ao vê-lo estremecer e corar de vergonha, porquanto o jovem adepto tinha o orgulho do pobre. - Aceita de uma vez, pois que na sua sacola ele tem o resgate de dois reis.
Os três desceram a escada da oficina e caminharam charlando a respeito de arte, até chegarem a uma bela casa de madeira situada perto da ponte de São Miguel, e cujos ornamentos, a aldraba, os caixilhos das janelas, os arabescos, maravilharam Poussin. O aspirante a pintor viu-se repentinamente numa sala baixa, diante de um bom fogo, junto a uma mesa servida de manjares apetitosos, e, por uma felicidade inaudita, na companhia de dois grandes artistas cheios de bonomia.
- Jovem - disse-lhe Porbus, ao vê-lo pasmado em frente a um quadro -, não olhe muito essa tela, pois ficaria desesperado.
Era o Adam, que Mabuse fez para sair da prisão na qual seus credores o retiveram durante muito tempo. Aquela figura apresentava, efetivamente, um tal poder de realidade que Nicolas Poussin começou, desde aquele momento, a compreender o verdadeiro sentido das confusas palavras do ancião. Este contemplava o quadro com ar satisfeito, mas sem entusiasmo, parecendo dizer: ''Fiz coisa melhor!''
- Há vida aí - comentou -; meu pobre mestre sobrepujou-se; falta, porém, ainda um pouco de verdade no fundo da tela. O homem está bem vivo, vai levantar-se e dirigir-se para nós. Mas o ar, o céu, o vento que respiramos, vemos e sentimos não estão aí. Ademais, não há aí mais do que um homem! Ora, o único homem saído diretamente das mãos de Deus devia ter algo de divino, que falta. O próprio Mabuse, quando não estava ébrio, dizia isso cheio de despeito.
Poussin olhava alternativa- mente para o ancião e para Porbus com uma curiosidade inquieta. Aproximou-se deste como para perguntar-lhe o nome do anfitrião; o pintor, porém, pôs um dedo nos lábios com ar de mistério, e o rapaz, vivamente interessado, calou-se, esperando que cedo ou tarde alguma palavra lhe permitiria adivinhar o nome do seu hospedeiro, cuja riqueza e talentos eram suficientemente atestados pelo respeito que Porbus lhe testemunhava e pelas maravilhas acumuladas naquela sala.
Poussin, ao ver no sombrio forro de madeira de carvalho um magnífico retrato de mulher, exclamou:
- Que belo Giorgione!
- Não - replicou o ancião -, está vendo uma das minhas primeiras lambuzadas.
- Demônios! estou então em casa do deus da pintura! - disse ingenuamente Poussin.
O ancião sorriu como um homem habituado de há muito a esse elogio.
- Mestre Frenhofer! - disse Porbus - não quererá mandar buscar um pouco do seu bom vinho do Reno para mim?
- Duas pipas! - respondeu o ancião. - Uma para pagar o prazer que tive esta manhã ao ver tua linda pecadora e a outra como um presente de amizade.
- Ah! se eu não estivesse sempre doente - respondeu Porbus - e se quisesse deixar-me ver sua Belle Noiseuse, eu poderia fazer alguma pintura elevada, vasta e profunda, na qual as figuras seriam de tamanho natural.
- Mostrar minha obra! - disse o ancião, emocionado. - Não! não! preciso aperfeiçoá-la ainda. Ontem, ao entardecer, pensei tê-la terminado. Os olhos dela pareciam-me úmidos, sua carne estava agitada. As tranças dos seus cabelos moviam-se. Ela respirava! Embora eu tenha achado o meio de realizar numa tela chata o relevo e as rotundidades da natureza, hoje de manhã, à luz, reconheci meu erro. Ah! para chegar a esse resultado glorioso, estudei a fundo os grandes mestres do colorido, analisei e ergui camada por camada os quadros do Ticiano, esse rei da luz; como esse pintor soberano, esbocei minha figura num tom claro com uma pasta flexível e abundante, porque a sombra nada mais é do que um acidente, guarda isso, garoto! Depois voltei à minha obra e, por meio de meias-tintas e de cores claras e translúcidas cuja transparência eu ia diminuindo gradualmente, reproduzi as mais vigorosas sombras e até os mais rebuscados negros; porquanto as sombras dos pintores comuns são de outra natureza que os seus tons claros; é madeira, é bronze, e tudo que quiserem, menos carne na sombra. Sente-se que, se as figuras deles mudassem de posição, os lugares sombreados não se clareariam e não se tornariam luminosos. Evitei esse erro, no qual muitos dos mais ilustres caíram, e em mim a alvura se realça sob a opacidade da mais firme sombra. Não fiz como uma porção de ignorantes que pensam desenhar corretamente porque fazem um traço cuidadosamente nítido; não, eu não assinalei secamente as bordas exteriores da minha figura e não fiz ressaltar até a menor minúcia anatômica, porque o corpo humano não acaba por linhas. Nisso, os escultores podem aproximar-se mais da verdade do que nós. A natureza comporta uma série de curvas que se envolvem umas nas outras. Rigorosamente falando, o desenho não existe! Não se ria, rapaz! Por mais estranha que lhe pareça essa afirmação, algum dia você lhe compreenderá as razões. A linha é o meio pelo qual o homem se dá conta do efeito da luz sobre os objetos; mas na natureza, onde tudo é cheio, não há linhas: é modelando que se desenha, isto é, que se destacam as coisas do meio em que elas se acham: é somente a distribuição da luz que dá aparência ao corpo! Por isso não fixei os traços, espalhei sobre os contornos uma nuvem de meias-tintas louras e quentes que faz com que não se possa com precisão colocar o dedo no lugar em que eles se confundem com o fundo. De perto, esse trabalho parece nebuloso e como que falto de precisão; mas a dois passos tudo se afirma, se detém, se destaca; o corpo gira, as formas tornam-se salientes, sente-se o ar circular em torno. Entretanto, ainda não estou satisfeito, tenho dúvidas. Seria preciso talvez não desenhar um único traço, talvez fosse preferível começar uma figura pelo meio, dedicando-se primeiro às saliências mais iluminadas, para passar depois às porções mais sombrias. Não é assim que faz o sol, esse divino pintor do universo? Ó natureza! natureza! quem jamais te surpreendeu nas tuas fugas! Olhem, o excesso de ciência, do mesmo modo que a ignorância, leva a uma negação. Não tenho confiança na minha obra!
O ancião fez uma pausa, depois prosseguiu:
- Faz dez anos, meu rapaz, que trabalho; mas o que são dez minguados anos quando se trata de tirar com a natureza? Ignoramos o tempo que o senhor Pigmalião empregou para fazer a única estatua que caminhou!
O ancião mergulhou em profunda meditação e permaneceu de olhos fixos, brincando maquinalmente com uma faca.
- Ei-lo em conversação com o seu espírito! - disse Porbus em voz baixa.
Ao ouvir tais palavras, Nicolas Poussin sentiu-se sob a influência de uma inexplicável curiosidade de artista. Aquele ancião de olhos brancos, atento e estúpido, que se tornara para ele mais do que um homem, afigurou-se-lhe um gênio fantástico que vivesse numa esfera desconhecida. Ele despertava-lhe mil idéias confusas na alma. O fenômeno moral dessa espécie de fascinação não pode ser definido, tanto quanto não o pode ser a emoção provocada por uma canção que lembre a pátria no coração de um exilado. O desprezo que aquele homem velho afetava manifestar pelas mais belas tentativas da arte, sua riqueza, suas maneiras, a deferência de Porbus por ele, aquela obra por tanto tempo mantida em segredo, obra de paciência, sem dúvida uma obra de gênio, se se devia julgar pela cabeça da Virgem que o jovem Poussin tão francamente admirara e que, bela ainda, mesmo ante o Adam de Mabuse, atestava a imperial feitura de um dos príncipes da arte: tudo naquele ancião ultrapassava os limites da natureza humana. O que a rica imaginação de Nicolas Poussin pôde apreender de claro e de perceptível ao ver aquela criatura sobrenatural foi uma imagem completa da natureza artística, dessa aloucada natureza à qual são confiados tantos poderes e que com demasiada freqüência deles abusa, arrastando a fria razão, os burgueses e mesmo alguns amadores através de mil estradas pedregosas onde, para eles, nada há; ao passo que, brincalhona nas suas fantasias, essa rapariga de asas brancas ali descobre epopéias, castelos, obras de arte. Natureza zombeteira e boa, fecunda e pobre! Assim, pois, para o entusiasta Poussin, aquele ancião tornara-se, por uma súbita transfiguração, a própria Arte, a arte com os seus segredos, seus ardores e seus devaneios.
- Sim, meu caro Porbus - volveu Frenhofer -, faltou-me até agora encontrar uma mulher irrepreensível, um corpo cujos contor-nos sejam de uma beleza perfeita e cuja carnação... Mas - continuou ele, após uma pausa - onde viverá essa Vênus dos antigos, impossível de achar, tantas vezes procurada e da qual encontramos apenas algumas belezas esparsas? Oh! para ver um momento, uma única vez, a natureza divina, completa, o ideal enfim, eu daria toda a minha fortuna... Mas irei procurar-te nos teus limbos, beleza celestial! Como Orfeu, descerei ao inferno da arte para de lá trazer a vida.
- Podemos ir embora daqui - disse Porbus a Poussin -; ele não nos ouve mais, não nos vê mais!
- Vamos ao seu ateliê - propôs o rapaz, maravilhado.
- Oh! o velho retre soube defender-lhe a enxada. Seus tesouros estão por demais bem guardados para que possamos chegar até eles. Não esperei tua opinião e tua fantasia para tentar o assalto do mistério.
- Há, então, um mistério?
- Sim - respondeu Porbus. - O velho Frenhofer foi o único discípulo que Mabuse quis ter. Tendo-se tornado amigo dele, seu salvador, seu pai, Frenhofer sacrificou a maior parte de seus tesouros para satisfazer as paixões de Mabuse; em troca, este legou-lhe o segredo do relevo, o poder de dar às figuras essa vida extraordinária, essa flor de natureza, nosso eterno desespero, mas da qual ele possuía tão bem a feitura que um dia, tendo vendido e bebido o damasco de flores com o qual devia vestir-se por ocasião da entrada de Carlos V, ele acompanhou seu senhor com um vestuário de papel pintado de damasco. O brilho particular da fazenda do traje de Mabuse surpreendeu o imperador, o qual, querendo dirigir um cumprimento ao protetor do velho ébrio, descobriu a intrujice. Frenhofer é um homem apaixonado pela nossa arte, que vê mais acima e mais longe do que os outros pintores. Ele meditou profundamente sobre as cores, sobre a verdade absoluta da linha; mas, à força de pesquisas, chegou mesmo a duvidar do objeto delas. Nos seus momentos de desespero, ele acha que o desenho não existe e que com linhas não se podem reproduzir senão figuras geométricas; o que ultrapassa a verdade, porquanto com a linha e o preto, que não é uma cor, pode-se fazer uma figura; o que prova que a nossa arte é, como a natureza, composta de uma infinidade de elementos: o desenho dá o esqueleto, a cor é a vida, mas a vida sem o esqueleto é uma coisa mais incompleta do que o esqueleto sem a vida. Enfim, há alguma coisa mais verdadeira do que tudo isto, e é que a prática e a observação são tudo num pintor, e que, se o raciocínio e a poesia se malquistam com os pincéis, chega-se à dúvida como o velhote, que é tão louco quanto pintor. Pintor sublime, ele teve a desgraça de nascer rico, o que lhe permitiu divagar; não o imite! Trabalhe! Os pintores só devem meditar com o pincel na mão.
- Nós penetraremos lá! - exclamou Poussin, que não ouvia mais Porbus e de mais nada duvidava.
Porbus sorriu ante o entusiasmo do jovem desconhecido e separou-se dele convidando-o a que o fosse visitar.
Nicolas Poussin voltou a passos lentos para a rue de la Harpe e ultrapassou sem se dar conta a modesta hospedaria onde se alojava. Subindo com inquieta celeridade sua escada miserável, chegou a um quarto no alto, situado sob um telhado com trapeira, simples o ligeira cobertura das casas da velha Paris. Junto à única e sombria janela daquele quarto estava uma moça, a qual, ao ruído da porta, ergueu-se subitamente por um impulso de amor; reconhecera o pintor pelo modo com que ele movera o trinco.
- Que tens? - perguntou-lhe.
- Tenho... tenho... - exclamou ele sufocado de gozo - que me senti pintor! Até agora tinha duvidado de mim, mas esta manhã tive confiança em mim! Posso ser um grande homem! Crê, Gillette, seremos ricos, felizes! Há ouro nesses pincéis...
Mas calou-se de repente. Seu rosto grave e vigoroso perdeu sua expressão de alegria quando comparou a imensidão das suas esperanças com a mediocridade de seus recursos. As paredes estavam cobertas de simples papéis cheios de esboços a lápis. Não possuía senão quatro telas próprias. As tintas estavam então muito caras e o pobre rapaz via sua paleta pouco mais ou menos vazia. No seio dessa miséria, ele possuía e sentia riquezas incríveis no coração e a superabundância de um gênio devorador. Trazido a Paris por um de seus amigos, fidalgo, ou talvez pelo seu próprio talento, ele ali veio encontrar subitamente uma amante, uma dessas almas nobres e generosas que vêm sofrer junto a um grande homem, partilham seus trabalhos e se esforçam por compreender-lhes os caprichos; forte para a miséria e o amor, como outros são intrépidos para usar o luxo e fazer ostentação de sua insensibilidade. O sorriso que errava nos lábios de Gillette dourava aquele sótão e rivalizava com o brilho do céu. O sol nem sempre brilhava, ao passo que ela sempre estava ali, interiorizada na sua paixão, presa à sua felicidade, ao seu sofrimento, consolando o gênio que transbordava no amor antes de se apoderar da arte.
- Ouve, Gillette, vem.
A obediente e alegre moça saltou sobre os joelhos do pintor. Era ela toda graça, toda beleza, linda como uma primavera, ornada com todas as riquezas femininas e iluminando-as com o fogo de uma bela alma.
- Oh! Deus! - exclamou ele - jamais me atreverei a dizer-lhe...
- Um segredo? - perguntou ela. - Quero sabê-lo.
Poussin permaneceu pensativo.
- Fala de uma vez.
- Gillette... pobre coração amado!
- Oh! queres alguma coisa de mim?
- Sim.
- Se queres que eu pose ainda para ti, como no outro dia - replicou ela com um arzinho amuado -, jamais consentirei em tal, porque nesses momentos teus olhos não me dizem mais nada. Não pensas mais em mim e contudo me olhas.
- Preferirias ver-me copiando uma outra mulher?
- Talvez - disse ela -, se fosse bem feia.
- Pois bem - replicou Poussin, em tom sério -, se, pela minha glória futura, se, para me tornar um grande pintor, fosse preciso ires posar para outro?
- Queres pôr-me à prova - respondeu ela. - Sabes perfeitamente que eu não iria.
Poussin inclinou a cabeça sobre o peito, como um homem que sucumbe a uma alegria ou a uma dor forte demais para a sua alma.
- Ouve - disse ela puxando Poussin pela manga de seu gibão surrado .-, eu te disse, Nick, que daria minha vida por ti; mas nunca te prometi renunciar ao meu amor enquanto vivesse.
- Renunciar? - exclamou o jovem artista.
- Se eu me mostrasse assim a um outro, tu não me amarias mais, e eu mesma me acharia indigna de ti. Obedecer aos teus caprichos não é uma coisa natural e simples? Embora não queira, sinto-me feliz e mesmo orgulhosa por fazer tua vontade querida. Mas para um outro, Deus me livre!
- Perdoa, minha Gillette - disse o pintor ajoelhando-se aos pés dela. - Prefiro ser amado a ser glorioso. Para mim, és mais bela do que a fortuna e as honrarias. Vai, atira fora meus pincéis, queima esses esboços. Enga- nei-me. Minha vocação é amar-te. Não sou um pintor, sou um amante. Mor- ram a arte e todos os seus segredos!
Ela admirava-o, feliz, seduzida. Ela reinava, sentia instintivamente que as artes eram esquecidas por ela e atiradas a seus pés como um grão de incenso.
- Entretanto, trata-se apenas de um ancião - insistiu Poussin. - Ele não poderá ver em ti senão a mulher. Tu és tão perfeita!
- É preciso amar muito - exclamou ela, pronta a sacrificar seus escrúpulos de amor a fim de recompensar seu amante por todos os sacrifícios que ele lhe fazia. - Mas - acrescentou - isso seria perder-me. Ah! perder-me por ti... Sim, seria uma coisa belíssima! Mas tu me esquecerás. Oh! que mau pensamento esse que tiveste!
- Tive-o e te amo - disse ele com uma espécie de contrição. - Mas então serei um infame?
- Consultemos o velho Hardouin - propôs ela.
- Oh! não; fique isso em segredo entre nós dois.
- Pois bem, irei; mas que não estejas presente - disse ela. - Fica na porta, armado com o teu punhal; se grito, entra e mata o pintor.
Não vendo mais do que sua arte, Poussin estreitou Gillette em seus braços.
''Ele não me ama mais!'', pensou Gillette, quando ficou só.
Já estava arrependida da sua resolução. Mas logo foi presa de um pavor mais cruel do que seu arrepen- dimento; esforçou-se em repelir um pensamento horrível que se erguia em seu coração. Julgava já estar amando menos o pintor por suspeitar ser ele menos estimável do que antes.



II

CATARINA LESCAULT

Três meses depois do encontro de Poussin e Porbus, este foi visitar mestre Frenhofer. O ancião estava então sujeito a um desses desânimos profundos e espontâneos cuja causa, se devemos dar créditos aos matemáticos da medicina, reside numa má digestão, no vento, no calor, ou em alguma inchação dos hipocôndrios; e, segundo os espiritualistas, na imperfeição da nossa natureza moral. O velhote pura e simplesmente se cansara em dar a última demão no seu misterioso quadro. Estava preguiçosamente sentado numa vasta poltrona de carvalho esculpido, forrada de couro preto; e, sem sair de sua atitude melancólica, dirigiu a Porbus o olhar de um homem que se instalara no seu tédio.
- E então, mestre - perguntou-lhe Porbus -, o ultramar que foi buscar em Bruges não era bom? Será que não soube misturar nosso novo branco? Seu óleo era ruim ou os pincéis eram teimosos?
- Ai de mim! - exclamou o ancião - durante um momento acreditei que minha obra estivesse concluída; mas com certeza me enganei nalguns detalhes e não sossegarei enquanto não dissipar minhas dúvidas. Estou decidido a viajar e vou à Turquia, à Grécia, à Ásia para procurar por lá um modelo e comparar meu quadro com alguns nus... É possível que eu tenha lá em cima - continuou, esboçando um sorriso de satisfação - a própria natureza. Por vezes, quase tenho medo de que um sopro desperte aquela mulher e que ela desapareça.
Depois, ergueu-se de repente, como para partir.
- Oh! oh! - respondeu Porbus - chego a tempo para poupar-lhe as despesas e as fadigas da viagem.
- Como assim? - perguntou Frenhofer, admirado.
- O jovem Poussin é amado por uma mulher cuja incomparável beleza não tem a menor imperfeição. Mas, meu caro mestre, se ele consente em emprestar-lha, será preciso pelo menos que nos deixe ver sua tela.
O ancião permaneceu de pé, imóvel, num estado de perfeita estupidez.
- Como! - exclamou ele, por fim, dolorosamente - mostrar minha criatura, minha esposa? rasgar o véu sob o qual castamente encobri minha felicidade? Mas isso seria uma horrível prostituição! Faz dez anos que vivo com essa mulher, ela é minha, só minha, ela me ama. Não me sorriu cada pincelada que lhe dei? Ela tem uma alma, a alma com que a dotei. Ela coraria se outros olhos que não os meus a fixassem. Mostrá-la! mas qual é o marido, o amante suficientemente vil para levar sua mulher à desonra? Quando fazes ora quadro para a Corte, não pões nele toda a tua alma, não vendes aos cortesãos mais do que manequins coloridos. Minha pintura não é uma pintura, é um sentimento, uma paixão! Nascida na minha oficina, ela aí deve permanecer virgem e não pode sair senão vestida. A poesia e as mulheres só se entregam nuas aos seus amantes! Possuímos nós o modelo de Rafael, a Angélica de Ariosto, a Beatriz do Dante? Não! não lhes vemos senão as formas. Pois bem, a obra que tenho lá em cima trancada a ferrolho é uma exceção na nossa arte. Não é uma tela, é uma mulher! uma mulher com a qual choro, rio, converso, penso. Queres que repentinamente eu abandone uma felicidade de dez anos como se atira uma capa; que repentinamente eu deixe de ser pai, amante e deus? Essa mulher não e uma criatura, é uma criação. Que venha o teu rapaz, eu lhe darei meus tesouros, quadros de Correggio, de Michelangelo, de Ticiano, beijarei as pegadas de seus passos na poeira; mas fazer dele meu rival? opróbrio sobre mim! Ah! ah! sou mais amante ainda do que pintor. Sim, terei forças para queimar a minha Belle Noiseuse ao dar o último suspiro; mas fazê-la suportar o olhar de um homem, de um rapaz, de um pintor? não, não! Mataria no dia seguinte aquele que a tivesse poluído com um olhar! Eu te mataria agora mesmo, a ti, que és meu amigo, se não a saudasses de joelhos! Queres agora que eu submeta meu ídolo às frias miradas e às críticas estúpidas dos imbecis? Ah! o amor é um mistério que só tem vida no fundo dos corações, e tudo está perdido quando um homem diz, mesmo ao seu amigo: "Aí está a mulher que amo!"

O ancião parecia ter remoçado; seus olhos tinham brilho e tinham vida; suas faces pálidas estavam matizadas de um vermelho vivo e suas mãos tremiam. Porbus, espantado com a violência apaixonada com que aquelas palavras foram proferidas, não sabia o que responder a um sentimento tão novo como profundo. Frenhofer estava no uso da razão ou louco? Estaria ele subjugado por uma fantasia de artista, ou as idéias que ele exprimira procederiam desse singular fanatismo que se produz em nós pela criação laboriosa de uma grande obra? Poder-se-ia esperar transigir um dia com aquela paixão estranha?
Empolgado por todos esses pensamentos, Porbus disse ao ancião:
- Mas não é uma mulher por outra mulher? Não entrega Poussin sua amante aos olhares do senhor?
- Que amante? - respondeu Frenhofer. - Cedo ou tarde ela o trairá. A minha me será sempre fiel!
- Pois bem - disse Porbus -, não falemos mais nisso. Mas, antes do senhor achar, mesmo na Ásia, uma mulher tão bela, tão perfeita como esta de que lhe falo, morrerá talvez sem ter concluído seu quadro.
- Oh! ele está acabado - disse Frenhofer. - Quem o visse, julgaria estar vendo uma mulher deitada num leito de veludo, velada por cortinas. Junto a ela uma tripeça de ouro exala perfumes. Ficarias tentado a agarrar as borlas dos cordões que retêm as cortinas, e te pareceria ver o seio de Catarina Lescault, uma bela cortesã chamada Belle Noiseuse, mover-se com a respiração. Entretanto, eu quisera ter certeza...
- Vá pois para a Ásia - respondeu Porbus, ao perceber uma certa hesitação no olhar de Frenhofer.
E Porbus deu alguns passos em direção à porta da sala.
Nesse momento, Gillette e Nicolas Poussin tinham chegado junto à residência de Frenhofer. Quando a moça estava a ponto de entrar, soltou o braço do pintor e recuou como se a tivesse invadido algum súbito pressentimento.
- Mas, afinal, que venho eu fazer aqui? - perguntou ao amante com um som de voz profundo e olhando-o fixamente.
- Gillette, deixei-te senhora de tua vontade e quero obedecer-te em tudo. Tu és minha consciência e minha glória. Volta para casa; eu serei mais feliz, talvez, do que se tu...
- Pertenço-me, acaso, quando me falas assim? Oh! não, não sou senão uma criança... Vamos acrescentou, parecendo fazer um esforço violento -, se nosso amor morrer e se puser no meu coração um infindável arrependimento, não será tua celebridade o preço da minha obediência aos teus desejos? Entremos, será ainda viver o estar sempre como uma recordação na tua paleta.
Ao abrirem a porta da casa, os dois amantes se encontraram com Porbus, o qual, surpreendido pela beleza de Gillette, cujos olhos estavam naquele momento rasos de lágrimas, segurou-a toda trêmula e, levando-a ante o ancião, disse-lhe:
- Veja, não vale ela todas as obras-primas do mundo?
Frenhofer estremeceu. Gillette ali estava, na atitude ingênua e simples de uma jovem georgiana inocente e medrosa, raptada por bandidos e apresentada a algum mercador de escravos. Um pudico rubor corava seu rosto; ela baixava os olhos; as mãos pendiam aos lados, as forças pareciam abandoná-la, e lágrimas protestavam contra a violência feita ao seu pudor. Nesse momento, Poussin, desesperado por ter tirado do sótão aquele belo tesouro, amaldiçoou-se a si próprio. Tornou-se mais amante do que artista, e mil escrúpulos torturaram-lhe o coração quando viu os olhos rejuvenescidos do ancião, o qual, por um hábito de pintor, despiu, por assim dizer, aquela moça, adivinhando-lhe as formas mais secretas. Retornou então ao feroz ciúme do verdadeiro amor.
- Partamos, Gillette! - bradou.
Ante aquele rasgo, a amante, alegre, ergueu os olhos para ele, viu-o, e correu para seus braços.
- Ah! então tu me amas! - respondeu, desatando a chorar.
Depois de ter tido a energia de fazer calar seu sofrimento, ela não tinha forças para ocultar sua felicidade.
- Oh! deixe-ma por um momento - disse o velho pintor - e poderás compará-la com a minha Catarina... Sim, consinto.
No grito de Frenhofer ainda havia amor. Parecia ter faceirice para com seu simulacro de mulher e gozar de antemão o triunfo que a beleza de sua criação ia conseguir sobre a de uma verdadeira moça.
- Não o deixe desdizer-se - exclamou Porbus, batendo no ombro de Poussin. - Os frutos do amor passam depressa, os da arte são imortais.
- Para ele - respondeu Gillette, olhando Poussin e Porbus atentamente - eu não serei então mais do que uma mulher?
Ergueu a cabeça com altivez; mas, quando, depois de dirigir um olhar cintilante a Frenhofer, ela viu seu amante entretido a contemplar outra vez o retrato que anteriormente ele tomara por um Giorgione:
- Ah! - disse ela - subamos! Ele nunca me olhou assim.
- Ancião - disse Poussin, arrancando à sua meditação pela voz de Gillette -, olha esta espada, eu a mergulharei no teu coração à primeira palavra de queixa que proferir esta moça, atearei fogo a tua casa, e ninguém sairá dela. Compreendes?
Nicolas Poussin estava sombrio e seu falar foi terrível. Essa atitude e sobretudo o gesto do jovem pintor consolaram Gillette, que quase o perdoou por sacrificá-la à pintura e ao seu glorioso futuro. Porbus e Poussin ficaram na porta do ateliê, olhando em silêncio um para o outro. Se, a princípio, o pintor de Maria Egipcíaca se permitiu algumas exclamações: "Ah! ela se está despindo, ele manda-a colocar-se em boa luz! Compara-a!", pronto calou-se ante o aspecto de Poussin, cujo semblante estava profundamente triste; e, conquanto os velhos pintores não tenham mais escrúpulos desses, tão mesquinhos diante da arte, ele admirou-os, de tal forma eram ingênuos e bonitos. O rapaz estava com a mão no punho da espada e com o ouvido quase colado à porta. Ambos, na sombra e de pé, assemelhavam-se assim a dois conspiradores à espera da hora de apunhalar um tirano.
- Entrem, entrem! - disse o ancião, radiante de felicidade. Minha obra está perfeita, e agora posso mostrá-la com orgulho. Jamais pintor, pincéis, tintas, tela e luz farão uma rival a Catarina Lescault, a bela cortesã!
Possuídos de viva curiosidade, Porbus e Poussin correram para o centro de uma vasta oficina coberta de pó, onde tudo estava em desordem, onde viram aqui e ali quadros pendurados nas paredes. Detiveram-se primeiro diante de uma figura de mulher de tamanho natural, seminua, que os encheu de admiração.
- Oh! não se ocupem com isso - disse Frenhofer -, é uma tela que borrei para estudar uma pose; esse quadro não vale nada. Aí estão meus erros - continuou, mostrando-lhes encantadoras composições penduradas às paredes, à roda deles.
Ante essas palavras, Porbus e Poussin, estupefatos com aquele desdém por tais obras, procuraram o retrato anunciado, sem conseguir vê-lo.
- Pois bem, aí está ele! - disse-lhes o ancião, cujos cabelos estavam em desordem, cujo rosto estava injetado por uma exaltação sobrenatural, cujos olhos cintilavam, e que ofegava como um rapaz ébrio de amor. - Ah! ah! - exclamou - não esperavam tanta perfeição! Estão diante de uma mulher e procuram um quadro. Há tanta profundidade nessa tela, o ar é nela tão real que não podem mais distingui-lo do ar que nos cerca. Onde está a arte? perdida, desaparecida! Eis as formas verdadeiras de uma rapariga. Não lhe dei bem o colorido, a precisão das linhas que parecem terminar o corpo? Não é o mesmo fenômeno que nos apresentam os objetos que estão na atmosfera como os peixes na água? Admirem como os contornos se destacam do fundo! Não lhes parece que podem passar as mãos nesse dorso? Também, durante sete anos, estudei os efeitos da conjunção da luz e dos objetos. E esses cabelos, não os inunda a luz?... Mas, creio, ela respirou!... Vejam, esse seio! Ah! quem não o quereria adorar de joelhos? As carnes palpitam. Ela vai erguer-se, esperem!
- Está vendo alguma coisa? - perguntou Poussin a Porbus.
- Não. E você?
- Nada.
Os dois pintores deixaram o velho entregue a seu êxtase, olharam para ver se a luz, ao cair a prumo sobre a tela que ele lhes estava mostrando, não neutralizava todos os seus efeitos. Examinaram então a pintura colocando-se à direita, à esquerda, de frente, abaixando-se e levantando-se alternativamente.
- Sim, sim, é mesmo uma tela - dizia-lhes Frenhofer, enganando-se com a finalidade daquele exame escrupuloso. - Olhem, aqui está a moldura, o cavalete, enfim, aqui estão minhas tintas, meus pincéis.
E apoderou-se de um pincel, que lhes apresentou num gesto ingênuo.
- O velho lansquenete está divertindo-se à nossa custa - disse Poussin, voltando para diante do pretenso quadro. - Não vejo ali senão cores confusamente amontoadas e contidas por uma porção de linhas esquisitas que formam uma muralha de pintura...
- Nós nos enganamos, veja! - respondeu Porbus.
Aproximando-se, perceberam num canto da tela a ponta de um pé nu que saía daquele caos de cores, de tons, de matizes indecisos, espécie de bruma sem forma; mas um pé delicioso, um pé com vida! Ficaram petrificados de admiração diante daquele fragmento escapo a uma incrível, a uma lenta e progressiva destruição. Aquele pé aparecia ali como um torso de alguma Vênus de mármore de Paros que surgisse de entre os escombros de uma cidade incendiada.
- Há uma mulher por baixo disso! - exclamou Porbus, fazendo Poussin notar as camadas de tinta que o velho pintor superpusera sucessivamente ao julgar que aperfeiçoava sua pintura.
Os dois artistas viraram-se espontaneamente para Frenhofer, começando a compreender, porém de modo vago, o êxtase no qual ele vivia.
- Ele está de boa-fé - disse Porbus.
- Sim, meu amigo - respondeu o ancião, despertando -, na arte é preciso fé, fé, e viver muito tempo com a própria obra para produzir semelhante criação. Algumas dessas sombras custaram-me muito trabalho. Olhe sobre a face, ali, abaixo dos olhos, há uma leve penumbra que, se a observarem na natureza, parecer-lhes-á quase intraduzível. Pois bem, julgam vocês que esse efeito não me custou trabalhos inauditos para reproduzi-lo? Mas também, meu caro Porbus, olha atentamente para o meu trabalho e compreenderás melhor o que eu te dizia sobre o modo de tratar o modelado e os contornos. Olha a luz do seio e vê como, por uma série de retoques e de realces fortemente empastados, consegui agarrar a verdadeira luz e combiná-la com a alvura lustrosa dos tons iluminados; e, como por um trabalho oposto, apagando as saliências e o grão da pasta, pude, à força de amaciar o contorno da minha figura, mergulhada nos semitons, suprimir até a idéia de desenho e de meios artificiais, e dar-lhe o aspecto e o próprio ondulado da natureza. Aproximem-se e verão melhor esse trabalho. De longe, ele desaparece. Vejam! ali, creio, ele é bem visível.
E com a ponta do pincel designava aos dois pintores um bloco de cor clara.
Porbus bateu no ombro do ancião, virando-se para Poussin:
- Sabe que vemos nele um bem grande pintor? - disse.
- Ele é ainda mais poeta do que pintor - respondeu Poussin gravemente.
- Aqui - prosseguiu Porbus, tocando a tela - acaba a nossa arte sobre a terra.
- E, daí, vai perder-se no céu - disse Poussin.
- Quanto gozo nesse pedaço de tela! - exclamou Porbus.
O ancião, absorto, não os ouvia e sorria àquela mulher imaginária.
- Mas cedo ou tarde ele se aperceberá de que não há nada na sua tela! - exclamou Poussin.
- Nada na minha tela! - disse Frenhofer, olhando alternativamente os dois pintores e seu pretenso quadro.
- Que fez você! - disse Porbus em voz baixa a Poussin.
O velho segurou com força o braço do rapaz e disse-lhe:
- Nada vês, labrego! tratante! patife! desavergonhado! Para que, pois, subiste aqui? Meu bom Porbus - disse ele virando-se para o pintor -, será que você também se está divertindo à minha custa? Responda! sou seu amigo, diga, teria eu estragado meu quadro?
Porbus, indeciso, não se atreveu a falar; mas a ansiedade pintada na fisionomia lívida do ancião era tão cruel que ele apontou para a tela, dizendo:
- Veja!
Frenhofer contemplou seu quadro um instante e cambaleou.
- Nada! nada! E ter trabalhado dez anos!
Sentou-se e chorou.
- Sou pois um imbecíl, um louco! não tenho nem talento nem capacidade! Não sou senão um homem rico que, ao caminhar, nada mais faz do que caminhar! Não terei, pois, produzido nada!
Contemplou a tela através de suas lágrimas, ergueu-se subitamente com orgulho e lançou aos dois pintores um olhar fulgurante:
- Pelo sangue, pelo corpo, pela cabeça de Cristo! vocês são uns invejosos que me querem fazer crer que ela está estragada, para ma roubarem! Eu vejo-a! - gritou - ela é maravilhosamente bela...
Naquele momento Poussin ouviu o pranto de Gillette, esquecida num canto.
- Que tens, meu anjo? - perguntou-lhe o pintor, voltando a ser um apaixonado.
- Mata-me! - disse ela. - Eu seria uma infame se te amasse ainda, porque te desprezo... Admiro-te, e me causas horror! Amo-te, e creio que já te odeio!
Enquanto Poussin ouvia Gillette, Frenhofer cobria sua Catarina com uma sarja verde, com a séria tranqüilidade de um joalheiro que fechasse suas gavetas ao julgar-se na companhia de hábeis ladrões. Dirigiu aos dois pintores um olhar profundamente dissimulado, repleto de desprezo e de desconfiança, pô-los silenciosamente fora de sua oficina, com uma presteza convulsiva; depois, à porta de sua casa disse-lhes:
- Adeus, meus amiguinhos.
Esse adeus gelou os dois pintores. No dia seguinte, Porbus, inquieto, voltou para ver Frenhofer e soube que ele morrera a noite, depois de ter queimado suas telas.
Paris, fevereiro de 1832

tradução de Ruth Guimarães

4/16/2013

Galeria

Realismo e sedução na pintura de Bruno Di Maio


O ilustre visitante de hoje é Bruno Di Maio. Bruno nasceu em Tripoli, na Libia, de pais italianos, e vive na Toscana, Itália. Sua técnica é prodigiosa e tem se dedicado a restaurações. Suas obras ganharam Los Angeles, San Francisco, New York, Tokio, Madrid, e encontram-se em coleções públicas e particulares. 


Sombras Douradas - Bruno Di Maio


Reflections - Bruno Di Maio


Bailarina - Bruno Di Maio



Lenço Vermelho - Bruno Di Maio

4/14/2013

Alexandre Brito - Leitura crítica de Sandra Santos

Alexandre Brito escreve poesia para crianças pequenas, médias e grandes. Seu primeiro livro infantil, Circo Mágico, foi finalista do Prêmio Açorianos e também selecionado no PNBE 2010. Seu segundo livro infantil, Museu Desmiolado, lançado em 2011, fez parte da Lista dos 30 melhores Livros Infantis 2012 da Revista Crescer e, ainda em 2012, selecionado para a Feira Internacional de Bolonha. Então, entro de cabeça no Museu Desmiolado do Alexandre Brito!





vou falar sobre um...

MUSEU DESMIOLADO
Por que um museu
perguntou a musa ao dicionário?
(...)
que tal entrarmos para conferir
sugere Benazir
(...)
o museu fica meio escondido
nem lembrado nem esquecido
(...)
isso porque certas artes
é bom que se diga
melhor fora do alcance das vistas
(...)

Entro, aceitando a sugestão de Benazir, no museu de Alexandre Brito. Percorro labirintos, sem tentar decifrar os mistérios. Entro assobiando, admirada com as cores das paredes. E, então, todos os relógios param. Os ponteiros começam a dar voltas ao contrário. Eu já estou criança com um pirulito na boca. E vou abrindo portas, lendas, parlendas. Lembrando de apelidos e palíndromos. Diante dos olhos, livros de edições esgotadas, com suas palavras guardadas no sebo.
E o livro era de literatura infantil, pois não? Mas a poesia de Alexandre Brito é para crianças pequenas, médias e grandes.
A literatura infantil de Alexandre Brito não se pretende pedagógica, mas leva pela mão o pequeno e o grande leitor ao universo das palavras esquecidas, às formas literárias das parlendas , à magia dos palíndromos.
A literatura infantil de Alexandre Brito tem um humor inteligente que encanta também os adultos, pois remexe nas memórias de infância e repassa essa memória aos de agora.
A literatura de Alexandre Brito tem múltiplos endereços.
E saio do livro lembrando Ferlinghetti, de “um parque de diversões da cabeça":

“ ... e enquanto nos amarrávamos aos mastros e tampávamos os ouvidos com goma de mascar jumentos tristonhos em colinas elevadas cantarolavam canções melancólicas e vacas joviais revoavam entoando cânticos atenienses e seus bulbos transformavam-se em tulipas e helicópteros de Hélios...”

(Ferlinghetti)

... e para degustar:



O MUSEU DA SOLIDÃO

o museu da solidão tem uma sala,
um espelho
e uma cadeira

na sala
cabe uma pessoa só
diante de si mesma

o museu da solidão
não é sólido nem é líquido
é íntimo

istmo
entre o futuro e o passado

não parece
mas o museu da solidão
é ensolarado

... e como nem tudo é solidão, mas quase tudo é íntimo, há também o meu, O Museu do Crepúsculo


O MUSEU DO CREPÚSCULO

                             para Coe-ty

o museu do crepúsculo
descerra suas portas ao fim da tarde

enquanto o sol arde
ele não abre

o museu do crepúsculo é exato
espera o último raio do dia se ir
para começar o espetáculo

são muitos crepúsculos em exposição
de Buenos Aires, Belo Horizonte, Assunção
São Luiz Gonzaga, Porto Alegre, Milão

tem até da cidade de Kioto no Japão

o céu se pinta de cores tão lindas
que não há palavra ou expressão
que as expresse em nenhuma língua

Alexandre Brito




leia mais sobre Alexandre Brito aqui

4/12/2013

Galeria

Entre o surrealismo e o fantástico, entre o macabro e o grotesco, as pinturas de Fulvia Zambon

A artista plástica italiana Fulvia Zambon nasceu em Turim e vive em Nova Yorque. Suas obras surrealistas tratam de cenas "cruas", beiram o grotesco, chocam o espectador. Alguns quadros lembram a dor e o fantástico da mexicana Frida Kallo.


"Eu retrato um mundo onde a carrinhos de bebê são veículo, casa e abrigo para estas estranhas jovens criaturas, alguns deles com membros amputados ou voando por um céu improvável"  (I depict a world where Baby-Carriages are a vehicle, home and shelter for strange young creature, some of them with missing limbs or flying in improbably sky)
                               Fulvia Zambon







da série "baby", 2006, óleo sobre linho






da série "baby", 2006, óleo sobre linho



da série "baby", 2006, óleo sobre linho



"pequena vida" (velório), 1999, óleo sobre linho



canção para uma criança, 1996, óleo sobre linho



"caldo de galinha",1998, óleo sobre linho



a rainha, 1997, óleo sobre tela

4/08/2013

Conto de Diego Müller


Em comemoração ao aniversário do primeiro ano do blog, em 2006, a Gata realizou um concurso de contos e premiou seus talentosos leitores. O primeiro lugar coube a Diego Müller, com seu Cortejo Negro.Boa leitura!

O 1° lugar levou a coleção do mestre Fellini (4dvds) com os filmes: "A Doce Vida" (1960), "Julieta dos Espiritos" (1965), "Abismo de um Sonho" (1952) e "Nino Rota, entre o cinema e o Erudito" (2000).

CORTEJO NEGRO - DIEGO MÜLLER

Os troncos secos da mata há muito morreram. Névoa grossa cegava além do estreito caminho que cruzava o lugar. O açude secara naquele tempo de pouca chuva. Tinha eu poucos anos. O balde cheio de água embarrada mal dava para beber. Hoje nem parece estreito d’água, e sim campo seco.
O caminho era lento praqueles todos. Todos negros, se arrastando num bolo de negrura em movimento. Bandeiras negras, camisas negras. Cheiro de morte e tristeza. Aroma de incenso velho. Folha queimada, ressecada ao mormaço de chuvarada, quase apodrecida.
O compasso de marcha: tum, tum, tum de tambor. Breve choro e soluço. A carroça, nova ou pouco usada, mal rangia. O cavalo, velho e desinteressado, ia por que ia. Pouco importa o defunto. O chão, carbonizado, tudo pintava de negro. Eu observava tudo, num aspecto de mineiro, maquiado para os túneis - camuflagem de curioso.
Todos em fila: ia o padre, grande homem negro, o carro, novo e negro, a viúva, jovem negra, as filhas, pequenas flores negras, os outros, todos negros, e alguns, nem sei bem, negros. Negros? Eu também.
Os poucos troncos ainda em pé desmoronavam com o tempo. Primeiro a casca, que firmava o oco pilar de mato morto. Depois o resto, que era o todo pois nada havia além do tronco. Eu era o tempo. Minha mão raspava a superfície, as unhas cravavam no caule, derrubando pequenos fragmentos podres. Esfarelava o tronco. Era tão fatal quanto o fogo que queimara tudo. Mato negro, açude seco. Isso quando tinha poucos anos. Nem conhecia ela e ela não me conhecia. Pelo menos acho eu. Mas todos eram próximos, só não se falavam. Não havia interesse algum em se chegar. Só se fosse para aumentar o pátio de casa. E assim foi. Lembro que era uma tal de Madissinéia. Nome estranho, nome difícil. Filha minha terá nome de santa! Então Maria e Maria. Vieram logo. Todos de branco.
Muito pouco tempo. Já não as tenho. Creio que há dois dias ando pelo costado da estrada, neste imenso matagal morto, carbonizado e negro. A noite ainda mais. Na hora que perdi os sentidos me veio à cabeça este lugar desolado. A medida que a vista nublava, a ferida queimava e o corpo tremia, não sei porque lembrei desta horrorosa assombração de tudo morto. Não devia ter ido a casa! Nem saber eu queria. Se soubesse, pediria para não saber. Não sabendo, ninguém saberia. 
Ele estava lá, em meu lugar. Eu no lugar errado. Demoraram a perceber que os via. Creio que as meninas a brincarem no pátio abafaram minha entrada. Mas ao me verem logo desvencilharam-se, um para cada lado. Ela para esconder-se nos panos. Ele para o cabo da arma. Tum, tum, tum de tambor.
Uma das Marias se ajoelhou e me pegou na mão. Madissinéia, tapada somente por um lençol branco, deixava as canelas a mostra, denunciando pernas mal depiladas. O sol daquela tarde transparecia o branco, e a deixava nua, suada. Estava revolta pelo sol intruso que lhe silhuetava. Quase aura, tipo santa. A Maria ao meu lado chorava. A outra, escondia o rosto na cintura da mãe que, sem bem lembro, não chorava, não ria, não cegava, nada. Estava com um olhar firme, numa expectativa de "quase".
As janelas bateram fortes numa ventania repentina. Os cabelos de Madissinéia agitaram-se. Minha Maria chorava mais alto, mas eu a ouvia cada vez menos. A outra Maria ainda mais longe. A porta também dava fortes socos contra a parede da sala. Tivesse o desgraçado fechado a porta ao sair para ninguém me ver.
Já iam longe na estrada que cruzava o mato. Eu não conseguia ir além. Todos em fila. Novamente um breve soluço e choro. Eles pisoteavam os galhos, numa sincronia de pisar, estalar, pisar. Todos no mesmo galho. Todos negros. Ela enxugava o suor feito lágrima. Devia estar cansada. Era difícil para uma jovem vestir negro.
De longe ainda sentia o azedo cheiro do cortejo negro. Via pequenos pontos negros em fila. Um grande homem negro ponteando os outros. Uma negrura jovem com mais duas outras. Outros negros juntos numa massa triste. Também alguns que nem sei bem se de negro iam. E eu fiquei no mato, recostado ao tronco. Vazio, oco, morto. Rodeado de outros, todos negros, muitos outros.

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