5/24/2013

Sandra Santos por Marcelo Moraes Caetano - Leitura Crítica

sandra santos blog



Aikai: Sandra Santos e a aventura sem razão - Marcelo Moraes Caetano

 akai significa vermelho. há uma lenda japonesa sobre um fio vermelho que une as pessoas para sempre "akai ito". alguns de meus aikais ligam-se a haicais de poetas que admiro, mas escrevo aikais livres, sem a preocupação com a forma tradicional (ainda que ela aconteça às vezes ). me permito brincar com versos curtos, criando quebra-cabeças, dominós, rumo ao infinito da experimentação coletiva. me permito fazer o verso pular fora do papel e virar peixe, para uma contemplação única do movimento.
"Parece-nos, desde a tenra infância do mundo como vontade e representação, que imitar – e superar – a beleza é o inevitável trocadilho de um atavio atávico à humanidade. A força da grana que constrói e destrói, que destrói e constrói coisas belas, o money que, afinal, makes the world go around – desde o ouro africano, a financiar a Renascença – tem sido o motor cuja sombra (sim, porque o ser humano ama o paradoxo, embora não o saiba) é a arte e o belo.Platão via o homem como sonho? Sonho, talvez; ideia, decerto. Aristóteles, seu aluno, o via como razão, como lógica, ética, política: animal da cidade. Descartes e Kant elevaram esse império da empiria à duodécima potência, num delírio que nem a própria Urânia quereria, quiçá, suster. Houve um sonhador-mor, em quem o prógono humano deveria ser a união vitruviana do homem platônico-aristotélico: nosso Da Vinci. Houve o seu antípoda, para o qual as perspectivas imanentistas e transcendentalistas do Renascimento-Escolástico de Da Vinci eram bazófia: Pablo Picasso e sua quebradeira (quase) desregrada.
Mas, no fundo, no fundo e bem dentro, somos Românticos. Românticos de raiz, de natureza viva, Românticos com “R” maiúsculo, como Goethe, como os Samurais, como Xogun. Como Guimarães Rosa, que alardeou à brasileira: o que importa ao homem é o grande sertão. A Natureza. As cidades são refúgios de poder, de artifício, de arte. A natureza não precisa de arte. Precisamos nós de arte porque, de mil formas, precisamos nos religar à Natureza.
A arte é artifício. Etimologia do orgulho grego, “Aretê”, do ar latim, “Ars”, da “Techné” – ofício, tecnologia, fazer, saber fazer.
A Arte é irmã gêmea da Ciência: ambas são manifestações humanas, apelam à estética (salve Alexandre Baumgartem!), necessitam ser controladas em experimentos que possam, de alguma forma, ser reproduzidos. Castor e Pólux constituem Arte e Ciência. Ogun e Elegbara, se quisermos recorrer à Teologia Yorubá.
Pois é neste centro sertanejo, interiorano, provinciano, puro, orgulhoso (com o orgulho santo greco-nipônico), belo, belo, laudatório do que é belo, que nasce e pousa e se pereniza cada aikai de Sandra Santos: borbo-letra.
Tem-se dito com razão que guerras, moeda e livros criaram o contorno da humanidade. De mirabilibus Mundi. Há pouco publiquei na revista Metáfora (Editora Segmento, São Paulo, edição de aniversário, outubro de 2012) ensaio breve sobre a peremptoriedade do conflito para a existência da arte. E – obviamente – da ciência.
Pois aqui, após ler o pujante e delicado livro de seda e aço que Sandra costura com linha de bambu, quis eu deitar loas à ontogênese da Teologia e da Teoria, o “Teo”, “Deus” platônico (e minúsculo, porquanto muito humano, em um missal aikai do livro ora degustado), quis eu, enfim, louvar nosso bom Sócrates, sabendo que nada sabe, e que, por isso, tudo e todo (o) saber lhe (nos) é possível.
Não saber nada é libertador como um aikai de Sandra. Saber que se sabe, nessa arqueologia do saber, nessa microfísica do poder foucaultiana, é uma prisão intrínseca a cada um de nós, gaiolinha de varetas titânicas de que, sem que muitos de nós saibamos, estamos semilibertos, libertinos, pois.
Ora, pois, se a guerra é inevitável à consecução do progresso do saber, viva eternamente a beleza inexplicável do sertão que jamais nos abandonou. Astreia foi-se, mas o sertão nunca se foi de nossa Gaia, Aiê.
Está cá, está aí. Está. Intransitivamente a Santíssima Trindade humana persistirá in seculum seculorum: a beleza, a natureza, e a ingenuidade. Tudo o que é belo, tudo o que é sertão e, sobretudo, tudo o que não se sabe (ou que, melhor, nem se sabe que não se sabe) é que subjaz à Arte e à Ciência, cordões umbilicais amamentando o mundo inteiro.
Cada aikai de Sandra é um spiritus que alça voo ao cerúleo céu das explicações, onde se perde, e nos enche de Graça, por não ter razão nenhuma; como a beleza e toda solidez que, na estrutura da bolha de sabão, se dissolve no ar.
Ars. Arte." ( palavras do professor e crítico literário Marcelo Moraes Caetano )


a borboleta
espetada na letra
é purpureta
   para Alexandre Brito

treme um haicai
na ponta da espada
de um samurai
     para Fred Maia

no chão voando
lá vai o leitor tão só
Leminskiando
     para Leminski

bocal de poço
rendado de avencas
cortinas da rã
     para Bashô

saber é só
sopro de Calíope
menino sabre
    para Marcelo Moraes Caetano

céu cerúleo
solo de sambaquis
vestígio azul
                   ao leitor


Marcelo Moraes Caetano:  Professor, pesquisador, crítico literário e pianista. Mestre em Estudos da Linguagem pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, pesquisador com dedicação exclusiva pelo CNPq, Doutor Honoris Causa pela Universidade de Coimbra e pela Federação dos Acadêmicos em Ciências, Letras e Artes e Doutor em Língua Portuguesa pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É membro titular da União Brasileira de Escritores, do PEN Clube do Brasil, da Académie des Arts, Sciences et Lettres de Paris (recebeu a Comenda e a Médaille de Vermeil da Instituição em 2011), da Academía de Letras y Artes de Chile e membro fundador da Federação Brasileira dos Acadêmicos de Ciências, Letras e Artes.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

pode gostar de...

Sandra SantosGatosMuseu do botao Arte erotica Codigo Coletivo

Traduzir